Agronegócio não é pop, tampouco tudo
- Yasmin Moscoski

- 14 de jul. de 2022
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de jul. de 2022
Como o setor muda a percepção negativa perante à população e compromete o desempenho da agricultura familiar, que é responsável pelo alimento na mesa brasileira

Era julho de 2011 quando Giovanna Antonelli e Lima Duarte estrearam nas rádios, canais de televisão e outros veículos brasileiros. Na ocasião, a dupla de atores não ocupava as mídias com o objetivo de falar das telenovelas globais finalizadas naquele ano, como Aquele Beijo (2011) e Araguaia (2011).
“Você sabia que no Brasil todo mundo tem uma fazenda? É! Uma fazenda. A minha fica bem aqui, na cidade. Bem no meio da minha cozinha, é só abrir a geladeira”, afirma Antonelli em um vídeo.
Em outra peça publicitária, com cerca de um minuto, Lima Duarte apresenta um verso aliterativo, caracterizado pela figura de linguagem que visa intensificar o que foi dito por meio da repetição. Nela, o ator anda por um palco enquanto recita:
“Bendita a terra que alimenta todo um país, que alimenta o mundo. Bendita a terra que é uma das maiores agro-nações do planeta. Bendita a terra que me dá orgulho de dizer: sou agro, agrocidadão!”
Além desses, há mais dois vídeos em que a dupla global propagandeia a campanha “Sou Agro”, criada com o objetivo de reverter a imagem negativa do agronegócio junto ao público brasileiro. Por meio de situações positivas, os atores associam a produção agrícola com feitos do cotidiano, como o alimento presente no jantar ou o algodão que compõe roupas e tecidos.
Não à toa, a campanha foi assinada pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMR&A), organização com o intuito de fortalecer e valorizar o marketing do agronegócio.
Talvez você não se lembre dessa campanha com Duarte e Antonelli, porque a que ocupa as televisões brasileiras hoje em dia é outra. Elaborada pela Rede Globo, em 2016 estreou a propaganda “Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é tudo". A estimativa era de que a campanha fosse vinculada até 2018, mas as mídias de 2022 ainda apresentam o tema por aí.
O objetivo é o mesmo: valorizar o agronegócio e mudar o teor negativo junto à população brasileira.
“Os vídeos de conceito, como o divulgado nesta quinzena, têm como objetivo tratar a importância dos produtos agrícolas e das coisas do campo para a sociedade brasileira. Os produtos agrícolas estão inseridos no dia-a-dia de todo cidadão urbano. Procuramos também sempre citar quantos empregos aquela atividade agrícola gera e quanto ela movimenta na economia”, escreve o G1 em editorial publicado em 2016.
Tomate, gente, frango, abelha, água, floresta, alimento e até a sustentabilidade. Tudo é considerado agro nas propagandas da Globo. Entretanto, o que é definitivamente o agronegócio?
Agronegócio é coisa de gente grande, muito grande
O agronegócio é a ampliação do sistema capitalista no campo. É a industrialização da agricultura. O termo foi incorporado no Brasil baseado no conceito de agribusiness, criado em 1957 nos Estados Unidos.
O modelo de produção baseado na monocultura começa a tomar forma por volta dos anos 60 e 70 com a “Revolução Verde”, processo global de incorporação de novas técnicas de agricultura. Essas técnicas eram - e ainda são - baseadas no uso intenso de maquinários agrícolas tecnológicos, sementes geneticamente modificadas e emprego de insumos químicos, como fertilizantes e agrotóxicos.
A revolução verde se vendeu como a solução a curto prazo para a fome do mundo, já que com tecnologia seria possível aumentar a produção de alimentos. Foi com esse discurso que países subdesenvolvidos, dentre eles o Brasil, a incentivaram.
Aqui, esse processo ocorreu durante a Ditadura Militar, período em que o governo criou políticas públicas de incentivo à industrialização do setor agropecuário. Foi o caminho tomado pelos militares com o intuito de “abastecer o mercado interno” em oposição a tão desejada e polêmica reforma agrária, processo de reorganização da estrutura fundiária em que há divisão e redistribuição de propriedades rurais agricultáveis para os trabalhadores da terra.
Êxodo rural, desemprego, concentração de terras e riquezas. Essas foram as consequências da revolução verde, para além do aumento de produção. Em complemento, surgiram a poluição das águas e do solo, mudanças do microclima local e o desenvolvimento de problemas de saúde decorrentes da utilização de agrotóxicos. Neste ponto, os fatos definitivamente indicam a chegada da indústria no campo.
Diogo Mazin, historiador pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mestre em geografia e atual professor da Escola Técnica de Monsenhor Antônio Magliano em Garça-SP, conta que no início apenas grandes fazendeiros tinham dinheiro para investir na modernização da agricultura. Entretanto, o cenário começa a mudar com o avanço das empresas no campo, ali nasceu o negócio do agro.
“No começo eram aqueles fazendeiros com nome e CPF, que você poderia até encontrar no centro da cidade usando aquele chapelão e uma caminhonete”, afirma. “A partir dos anos 2000, essa agricultura começou a ser desenvolvida por grandes empresas, grandes corporações, inclusive por grandes bancos. O banco não é agricultor. Mas ele passa a investir na produção da cana-de-açúcar, por exemplo, porque ele sabe que daqui a seis anos ele vai ter uma taxa de lucro. Isso é o agronegócio. Uma junção da revolução verde, dessas técnicas industriais para agricultura que destroem o meio ambiente, com a soma dessas grandes corporações, empresas transnacionais e sistema bancário”, complementa.

Ou seja, no Brasil de hoje em dia só faz parte do agronegócio o empresário detentor de um (ou vários) latifúndios com mão de obra mecanizada, lavoura com alto desenvolvimento tecnológico e que visa a monocultura, cultivo de um único produto.
Normalmente, esse produto é a soja. De acordo com o Censo Agro 2017, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a soja é a lavoura de maior valor produção no Brasil, seguida da cana-de-açúcar, milho e café, respectivamente. Eucalipto, carne bovina e algodão também entram para o escopo de produção do agronegócio.

Esses produtos são conhecidos como commodities, matéria-prima de baixo valor agregado e produzida em larga escala. Elas têm como destino o mercado internacional, que ficará responsável por transformá-las em outros produtos. Novamente, como exemplo está a soja brasileira, que é o principal produto produzido e exportado pelo agronegócio.
De acordo com informações do Canal Rural, 70% da soja exportada em 2021 teve como destino a China, somando 58,393 milhões de toneladas. Lá, teve a maioria da oleaginosa transformada em alimentação para os rebanhos de suínos - principal carne consumida no país.

Agricultura familiar produz comida e emprego, agro é só negócio
Enquanto o agronegócio está majoritariamente ocupado em produzir matéria prima para exportação, assim como o Brasil Colônia já fazia há mais de 500 anos, quem coloca comida na mesa do brasileiro é a agricultura familiar.
Segundo o Censo Agro 2017, cerca de 70% dos alimentos de abastecimento interno saem de pequenas unidades produtivas que cultivam para consumo próprio e comércio local. Esses núcleos são o que se conhece por agricultura familiar e contam com mão de obra composta essencialmente pela família.
Eles ficam encarregados de produzir 87% da mandioca, 70% do feijão, 64% da horticultura, 59% dos suínos, 58% do leite, 50% das aves, 44% da batata e 37% da fruticultura, de acordo com o IBGE.
Luciana Martins leva essa e outras responsabilidades nas costas. A produtora rural cultiva legumes e verduras no sítio que mantém com a família na região próxima ao Aeroporto Estadual de Bauru/Arealva. Todos os domingos, ela se desloca até a feira livre da Gustavo Maciel, no centro de Bauru, para comercializar os alimentos. Foi por lá que a reportagem a encontrou.
Na breve conversa com ela, é notório que a desinformação sobre o agronegócio vai além dos centro urbanos e atinge até os produtores rurais, aqueles que mais sofrem com o avanço desenfreado da indústria no campo.
Momentos após compartilhar as dificuldades enfrentadas pela familia decorrente da falta de incentivos, a produtora rega elogios - e desinformação - sobre o agronegócio. Sim. O mesmo setor que ficará com 71% dos investimentos públicos do Plano Safra 2022/2023, cerca de 243,4 bilhões. Tudo para produzir commodity para exportação.
O país não é "movido no agro", como sugere as propagandas e publicidades sobre o setor na TV. Tampouco gera tantos empregos assim.
Novamente, o ramo responsável pela maioria de empregos no meio rural é a agricultura familiar. As pequenas propriedades ocupam 10,1 milhões de trabalhadores rurais do montante de 15,1 milhões. É o equivalente a 63% da mão de obra utilizada na agropecuária brasileira, segundo o Censo Agro 2017. Isso tudo recebendo apenas 15% de investimentos do Plano Safra 22/23.
"Agricultura familiar nunca foi uma agricultura privilegiada do ponto de vista agrário, até nos governos petistas onde tivemos alguns avanços em algumas políticas públicas. Agora, com o governo Temer e Bolsonaro, as poucas políticas públicas que foram criadas pra manter o agricultor no campo estão sendo desestruturadas", informa Diogo Mazin sobre os desestímulos à produção de alimentos.
"A desestruturação dessas políticas vem nesse sentido de fazer com que as pessoas abandonem o campo. Isso aumenta a concentração de terras. Na concepção das empresas e até do próprio Estado atual, aqui [terras ocupadas com alimentos] tinha que estar a soja, cana-de-açúcar e eucalipto", finaliza.



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